Para os que não estiveram na VIII Maratona de Leitura da Sertã (entre 4 e 6 de Julho):

É demasiado fácil escrever sobre a grandeza destes dias porque todos ficaram a ganhar com eles mas é difícil transpor para aqui tudo o que por lá se viveu.

Um dos maiores eventos literários do país tem vindo, ano após ano, a crescer equilibradamente e a surpreender com o seu conteúdo. E não é já este apenas um lugar de encontros, mas um tempo de reencontros. Reconhecem-se rostos de anos anteriores, sente-se a paixão com que uma equipa coordena, ao longo de 3 dias, 57 actividades, e percebe-se que há uma energia positiva e criativa a rondar todo o concelho da Sertã.

Entro na memória para procurar o que dela conseguir ver. Como a Dulce Maria Cardoso disse no Hotel da Foz da Sertã “não se pode falar de memória sem imaginação” e, por isso, temo que realidade e ficção se misturem nesta exposição. Não importa. Tenho a certeza que o hotel nunca esteve tão bonito e que todos se esqueceram que este lugar estava abandonado.

As luzes que lhe pintavam as paredes naquela noite quente eram tão vivas e a música de Miguel Calhaz em tons africanos tão forte que este lugar deixou de ser um espaço de ausência após anos e anos e anos. As margens do rio tinham tantas saudades de presença e festa. Esta é a imagem ideal para pôr num livro. Um daqueles que Maurício Leite falou na sua oficina sobre o livro enquanto partilha e espaço de emoções, que desperta reconhecimento e abre o diálogo. Para ele um livro sem palavras tem riqueza porque nos movimenta para a atenção, o foco e nos leva a dizer, a criar.

E a inspiração veio de onde?

Parece-me que a Miguel Manso não lhe faltou. O atelier Túlio Vitorino é a casa mais bonita de Cernache do Bonjardim e esteve aberta 24 horas para quem quisesse escrever à máquina. Lá esteve o poeta entregue às máquinas de escrever, a deixar que os vaidosos arcos árabes e os azulejos moçárabes fossem vistos e apreciados, os frutos do grande abacateiro que ladeia a casa cobiçados, e que este lugar fosse “para a arte”. Na mesma altura em que se abriam as portas deste atelier, Fernando Alvim levava para o ar uma “Prova Oral” transmitida a partir da Sertã na qual Ana Sofia Marçal, coordenadora da maratona, frisava que este “é um programa para quem gosta de ler mas também para quem não gosta de ler” .

A tarde do dia 5 de Julho ficou marcada pelas oficinas. Enquanto a autora de “Na memória dos rouxinóis” estava na escola da Abegoaria com uma oficina de escrita teórico- prática, Pedro Lamares, na sala de sócios do Clube da Sertã, desvendava os segredos da arte de ler, em que “a voz é um objecto de plasticina” e Ondjaki e Mafalda Milhões dirigiam aos mais novos uma oficina de criatividade e emoções na Junta de Freguesia da Sertã.

Já ao final do dia, na Várzea de Pedro Mouro, um barco lançou-se ao rio com Lopito Feijóo e Abdulai Silá ao comando da leitura. A conversa cativou tanto que num momento o barco chegou-se bem perto da margem e quase ninguém deu conta. Já quase a bater o barco, foi reposto ao centro do rio Zêzere e retomaram-se as histórias de vida entre estes dois homens das letras, o primeiro de Angola e o segundo da Guiné-Bissau. Histórias amargas de guerra, de desilusão e de luta pela justiça numa maratona inspirada este ano pela literatura africana de língua portuguesa.

A partir das 00H do dia 6, o palco da leitura recebeu todos os que quiseram ler. A noite trouxe também as histórias ocultas sertaginenses. Enquanto às 4 da manhã J-K, Marua e DarkSunn rimaram, declamaram e experimentavam a musicalidade das palavras, Sérgio Lopes deu a conhecer pelas ruas da Sertã os enredos mais macabros, rocambolescos e históricos da vila. Partindo da Alameda da Carvalha em direcção ao Cine Teatro Tasso, passando por ruelas e descendo pela Rua Cândido dos Reis, contou espaço a espaço os factos dos principais crimes decorridos na Sertã.

A noite foi dando lugar ao dia. Á medida que as palavras aumentaram em cima do palco iniciou-se, com mal-dormidos ou não dormidos, às 7 horas, o passeio pedestre com o escritor Gonçalo Cadilhe. O presidente da junta de freguesia de Pedrogão Pequeno recebeu-nos e acompanhou-nos numa caminhada que deu a conhecer um lugar calmo e silencioso onde a Natureza reina por baixo da muito alta e muito frequentada ponte do Cabril.

As conversas fluíram. Alguns falavam do showcooking de gastronomia africana que tinha acontecido no dia anterior, outros do espectáculo noturno da companhia Andante. Por vezes, como é habitual nestes passeios, em alguns minutos imitam-se as aulas de botânica. Notamos que são abundantes os carvalhos e sobreiros, conhecemos o azereiro e pomo-nos a querer adivinhar os nomes de tudo. E é neste cenário verde e cheio, depois de passarmos por um túnel daqueles que existem nos contos do género fantástico, que nos sentamos para ouvir Gonçalo Cadilhe falar nas suas viagens, na sua história de vida e em como “a beleza é frágil”. Ali, logo ali, onde o belo começa no chão e se espalha até ao céu.

Já pelas aldeias os contadores de histórias e as bibliotecas itinerárias assentaram arraias e as histórias entrelaçaram-se no quotidiano, as palavras estenderam-se até aos limites do concelho. Serão recordados certamente, mais tarde, pela população, alguns contos, nas conversas de mercearia ou nos encontros nos cafés.

A tarde traz o lançamento do livro “Língua-mãe: antologia” com textos de vários escritores presentes nesta edição da maratona, uma formação com Cristina Paiva e um workshop de dança tradicional africana. Logo depois na Casa da Cultura da Sertã apagam-se as luzes, sobrando apenas as do palco, para Marco Figueiredo ao piano e as fotografias projectadas de uma Sertã antiga, e as das pequenas lanternas que alguns elementos do público têm. Estes voluntários, um a um, olham pela primeira vez para uma fotografia sobre a qual improvisam frente à audiência, e para um pianista que vai acertando a música com o que é dito.

A noite começa a fechar o dia. Jorge Serafim sobe ao palco no castelo e parece-nos que estamos em África a ouvir uma daquelas histórias longas que embalam os sonhos. Depois um escritor, um pianista e um desenhador. Ondjaki, Filipe Raposo e António Jorge Gonçalves projectam o desenrolar das três linguagens numa performance (“O telhado do mundo”) única dirigida pela cumplicidade e a improvisação. Logo de seguida Pedro Lamares e Lúcia Moniz entregam-se às cartas trocadas entre Sophia de Mello Breyner e Jorge de Sena. “Esta não é a Sofia do mar. Esta é outra Sofia”, começa por dizer Pedro Lamares antes de começar “Para atravessar contigo o deserto do mundo”.

Foram tres dias de exposições, lançamentos de livros, workshops, oficinas, passeios e leituras, entre tantas outras coisas. Muito do que aconteceu ficou fora deste texto mas esta foi a minha maratona. Cada um começou-a no quilómetro zero e percorreu-a nas suas escolhas. Não é fácil decidir o que fazer com tanta abundância e diversidade tal como o leitor diante de um uma multidão de livros tem dificuldade em dedicar-se apenas a um. Cada qual tem de seguir o seu caminho de leitura/maratona, acabando por ter assim uma experiência única e singular. E ninguém que tenha feito esta maratona pode dizer que não saiu de lá mudado e diferente, com a marca das grandes experiências.

No final há sempre um “obrigado(a)” mas a verdadeira forma de agradecer é participar, é percorrer as emoções que os livros abertos libertam, é fugir (levando nessa fuga o tempo e a atenção) para o interior do país e querer fazer parte de algo que raramente se consegue encontrar. Até para o ano!

CÁTIA DANIELA

STYLE 4 LIFE Iberia

 

 

 

 

 

 

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